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Archive for 1 de maio de 2010

A maior parte da humanidade, sobretudo na Europa Central, simula trabalho, faz ininterruptamente teatro com o trabalho e apefeiçoa até à idade avançada esse trabalho teatralizado, que tem tão pouco a ver com o verdadeiro trabalho como o verdadeiro e autêntico teatro com a vida real e verdadeira. No entanto, dado que as pessoas preferem sempre ver a vida como teatro a ver a própria vida, que, em última análise, lhes parece demasiado penosa e seca, como uma insolente humilhação, preferem fazer teatro a viver, fazer teatro a trabalhar. (…) Mas não é só nas chamadas classes mais altas que hoje o trabalho é geralmente já mais fingido que realmente feito, também entre as pessoas ditas mais simples esse teatro está bastante divulgado, as pessoas fingem trabalho por toda a parte, simulam actividade, quando, na realidade, apenas passam o tempo a mandriar e não fazem absolutamente nada e, em geral, em vez de se tornarem úteis, causam ainda por cima o maior prejuízo. A maior parte dos trabalhadores e operários julga hoje que basta vestir o fato-macado azul, sem fazer seja o que for, para já não falar numa actividade útil, e faz do trabalho um teatro, e o seu traje é o fato-macaco azul que ostenta enfaticamente durante todo o dia, correndo com ele sem cessar de um lado para o outro e chegando mesmo muitas vezes a suar, mas esse suor é falso e, por isso, perverso e provém apenas de trabalho simulado, não real. Mesmo o povo já há muito tempo chegou à conclusão de que o trabalho simulado é mais rendoso que o realmente feito, ainda que nem de longe seja mais saudável, pelo contrário, e já só finge trabalho, em vez de efectivamente o executar, pelo que os Estados se encontram de repente, como nós vemos, à beira da ruína. Na verdade e na realidade já só há no mundo actores que do trabalho fazem teatro, não há trabalhadores. Tudo é fingido como no teatro, nada é realmente feito.

Thomas Bernhard, in ‘Extinção’


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Quanto tempo
Duram as obras? Tanto
Quanto o preciso pra ficarem prontas.
Pois enquanto dão que fazer
Não ruem.

Convidando ao esforço
Compensando a participação
A sua essência é duradoura enquanto
Convidam e compensam.

As úteis
Pedem homens
As artísticas
Têm lugar pra a arte
As sábias
Pedem sabedoria
As destinadas à perfeição
Mostram lacunas
As que duram muito
Estão sempre pra cair
As planeadas verdadeiramente em grande
Estão por acabar.

Incompletas ainda
Como o muro à espera da hera
(Esse esteve um dia inacabado
Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)
Insustentável ainda
Como a máquina que se usa
Embora já não chegue
Mas promete outra melhor.
Assim terá de construir-se
A obra pra durar como
A máquina cheia de defeitos.

Bertold Brecht,

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